As nove tradições que compõem a Bujinkan Budō Taijutsu são a espinha dorsal de um legado marcial que atravessou séculos de história japonesa. Reunidas sob orientação de Masaaki Hatsumi, elas refletem não apenas técnicas de combate, mas modos de pensar, de mover e de compreender a vida. Em Unarmed Fighting Techniques of the Samurai (2008), Hatsumi descreve essas escolas como fios que entrelaçam o espírito do guerreiro japonês – cada uma com sua voz, seu ritmo e sua filosofia.

A Togakure Ryū Ninpō Taijutsu (戸隠流忍法体術) é talvez a mais emblemática entre elas. Originária da região de Togakure, em Nagano, sua fundação é atribuída a Daisuke Nishina no século XII. Essa escola se tornou sinônimo do ninjutsu, valorizando evasão, disfarce e adaptação. Mais do que técnicas furtivas, ensina a buscar a vitória sem confronto direto, cultivando paciência e leitura do ambiente — princípios ainda relevantes para o praticante moderno.

A Gyokko Ryū Kosshijutsu (玉虎流骨指術) surge como uma arte refinada, focada em atacar músculos e nervos de forma precisa, com movimentos circulares que quebram a força do adversário. Seus ensinamentos, mencionados por Hatsumi e registrados em coleções de densho preservadas no Japão, refletem o conceito de economia de movimento, um traço marcante da estética marcial japonesa.

Complementando-a, a Koto Ryū Koppōjutsu (虎倒流骨法術) enfatiza golpes lineares e diretos, atingindo ossos e articulações. É uma escola de impacto e estrutura, que ensina a gerar força através do alinhamento corporal, não da rigidez. Na comparação entre Gyokko e Koto, o equilíbrio entre suavidade e firmeza se torna evidente – um diálogo de yin e yang aplicado ao combate.

Entre as tradições de maior amplitude técnica está a Kukishinden Ryū Happō Bikenjutsu (九鬼神伝流八法秘剣術), famosa pelo uso de armas e pelo estudo do combate em armadura. Suas origens remontam aos tempos dos clãs samurai do período Muromachi, e fontes japonesas externas à Bujinkan, como o Kukishin Ryū Bujutsu Hozon Kyōkai, mantêm linhagens próprias da mesma tradição. Ela representa o elo entre o guerreiro de armadura e o artista marcial moderno, preservando a transição entre armas longas e taijutsu.

Já a Shinden Fudō Ryū Dakentaijutsu (神伝不動流打拳体術) ensina que a força verdadeira vem do movimento natural. Fundada por Izumo Kanja Yoshiteru no século XII, esta escola se baseia na observação da natureza: raízes firmes, tronco flexível, equilíbrio dinâmico. Hatsumi descreve essa tradição como o coração do taijutsu, pois ela exige espontaneidade e autenticidade no movimento – agir sem rigidez, reagir sem hesitação.

A Takagi Yōshin Ryū Jūtaijutsu (高木揚心流柔体術) traz uma herança mais diretamente samurai, com técnicas de projeção e controle próximas do que hoje se conhece como jūjutsu clássico. Criada no século XVII, enfatiza o combate em espaços reduzidos, como dentro de castelos, onde a habilidade de derrubar ou desequilibrar o oponente era essencial. Seu princípio – erguer o coração e abaixar o corpo – simboliza tanto humildade quanto prontidão.

Entre as tradições menos conhecidas, a Gikan Ryū Koppōjutsu (義鑑流骨法術) preserva o ideal de justiça e retidão. Seu foco em estrutura óssea e deslocamento eficiente reflete o treinamento de samurais do período Sengoku. Hatsumi observa que sua essência está em manter a integridade – física e moral – mesmo em meio ao conflito, uma lição que ressoa fortemente no Budō contemporâneo.

As duas últimas escolas, Gyokushin Ryū Ninpō (玉心流忍法) e Kumogakure Ryū Ninpō (雲隠流忍法), representam aspectos mais sutis da tradição ninja. A primeira se relaciona à observação e à adaptação mental, enquanto a segunda simboliza a liberdade e o movimento, a capacidade de se ocultar nas “nuvens” – metáfora para escapar das amarras da rigidez e da previsibilidade. Em registros japoneses, como os compilados por Tanemura Shoto em estudos sobre as linhagens de Iga, há menções independentes dessas tradições, reforçando sua existência além da estrutura moderna da Bujinkan.

Unidas, essas nove tradições formam um sistema de conhecimento vivo. Em cada uma há o eco de mestres que estudaram o corpo, a estratégia e o espírito. Como escreveu Hatsumi, “o Budō é a arte de viver plenamente o instante”. A prática do Budō Taijutsu, portanto, não é apenas um exercício físico, mas um modo de compreender o fluxo da vida, cultivando atenção, serenidade e respeito às raízes que sustentam a arte.